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UNIÃO FEDERATIVA ESPÍRITA PAULISTA E RÁDIO PIRATININGA

 (denominada União Espírita Paulista)

Nosso primeiro contato com a União Federativa ocorreu em fins de 1937. Ela funcionava no Largo do Riachuelo, N°38, Largo esse cujos prédios foram demolidos, para dar lugar a Praça das Bandeiras.

A União Federativa, entidade fundada em fevereiro de 1933, era presidida por Caetano Mero, o qual nasceu na Itália e estava, na época, com seus 50 anos. Era longilíneo, magro, com 1m80 de altura, cabelos totalmente brancos. Era comerciante, ligado ao setor de águas minerais, e estava iniciando a exportação de água mineral de Poá, então um pequeno Distrito, próximo a Mogi das Cruzes. Pessoa carismática, gozava de grande prestígio junto aos espíritas de São Paulo.

Até 1941, a União Federativa era a maior entidade Federativa do Estado de São Paulo, contando com um velho e amplo salão (com cerca de 200 lugares), onde realizava suas reuniões diárias. Possuía grande número de Centros espíritas filiados, na Capital e no Interior. Em 1939, sua diretoria estava assim constituída:

Presidente: Caetano Mero

Vice-presidente: José dos Reis Pontes

Secretário-geral: Antenor Ramos

1º Secretário: João Spinelli

2º Secretário: Luiz Cunha da Silva

Procurador Geral: Campos Vergal

1º Tesoureiro: Joaquim Vaz

2º Tesoureiro: Jonas Sant’ Ana

Bibliotecário: Herculano Borges

Arquivista: Margarino F Borges

O vice-presidente, José Pontes, foi pai do grande clínico prof. José Fernando Pontes, pioneiro da gastroenterologia no Brasil e diretor do Instituto Gastroenterologia de São Paulo, famoso em todo o Brasil. Esse médico nunca militou no Espiritismo.

Antenor Ramos dedicou toda a sua vida ao Espiritismo. Deixou, ainda na década de 40, a União Federativa e, auxiliado por Eurípedes de Castro e outros, fundou a Liga Espírita do Estado de São Paulo. Antenor Ramos foi presidente da Liga em várias gestões e participou ativamente da fundação da União das Sociedades Espíritas (USE). Escrevia, com frequência, para vários jornais espíritas. Mais tarde, a presidência da Liga passou para o Dr. Eurípedes de Castro.

Joaquim Vaz era a pessoa humilde e grande trabalhador, dava assistência a numerosos Centros filiados, principalmente na periferia de São Paulo. Uma das primeiras palestras que fizemos foi na Vila Jaguara, em 1942, levados por Joaquim Vaz. Fomos à noite, de trem, e andamos uns dois quilômetros até o Centro, por ruas escuras.

Os outros membros da Diretoria não conhecemos pessoalmente, portanto não temos condições de falar sobre eles, exceto Campos Vergal.

A União Federativa mantinha trabalhos diários, a tarde e a noite. Às 2as e 4as e sábados, às 15 horas, havia sessões doutrinárias e passes aos doentes. Às 2as e 6as, às 20 horas, realizava sessões “experimentais” (mediúnicas). Todas eram sessões públicas. Às 4as, à noite, sessões de desobsessão, “para doentes previamente inscritos”. Aos sábados e domingos, às 20 horas, palestras evangélicas. Programa intenso, como se vê, principalmente para a época, quando os Centros realizavam apenas uma reunião semanal.

A união da Mocidade Espírita, fundada em maio de 1937, no início passou a fazer as reuniões na sede da União Federativa, as 3as, à noite. Campos Vergal era o traço de união. Foi lá que os jovens iniciaram seus trabalhos inovadores.

A União Federativa já tinha, em 1939, 57 delegados na Capital, (temos a relação completa) com tarefas junto aos Centros espíritas e nas Assembléias. Entre eles, lembramos: 1 – Pedro Fernandes Alonso, jornalista e orador, com atuação também em algumas cidades do Interior, como São Carlos; 2 – dr. Ubirajara Dolacio Mendes, grande advogado, mais tarde membro da Casa Civil do Governador Jânio Quadros; 3 – Sebastião Maggi da Fonseca, diretor do jornal Espírita do Tucuruvi e líder da região. Durante 20 anos foi Conselheiro da USE; 4 – Armando Pardini, orientador da Mocidade; 5 – Otávio Ribeiro Leite, membro da Mocidade; 6 – Margarino Borges, que cuidava do Arquivo e da Tesouraria; 7 – Hermenegildo de Aquino.

Os delegados da União Federativa, pelo Interior, eram em torno de 100, distribuídos por 83 cidades. Gostaríamos de citar, dentre eles, os que conhecemos pessoalmente: 1 – Gustavo Marcondes e dr. Souza Ribeiro (Campinas); 2 – Pedro Severino Júnior (Monte Azul), pai da dra. Marlene Severino Nobre, hoje presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo. (A rua do Jabaquara, onde funcionava C. E. Cairbar Schutel, chama-se hoje Pedro Severino Jr.); 3 – José Herculano Pires (Cerqueira César), um dos maiores espíritas do Brasil; 4 – César Bianchi e João Brandão Jr. (Itapira); o primeiro foi administrador, durante decênios, do Sanatório Espírita Américo bairral, de Itapira; 5 – Antenor de Souza, que veio a ser administrador do Sanatório Espírita de Cruzeiro; 6 – Urubatão Pitta (Piracicaba); 7 – Carlos Steagall (Santa Bárbara), sobre quem falamos quando nos referimos ao Espiritismo em Piracicaba; 8 – dr. Flávio Pinheiro (Ibitinga), médico, membro da associação Médico-Espírita; 9 – Germano E. dos Anjos (Caçapava); 10 – Manoel Pinto Ribeiro (Marília), depois membro do Conselho Regional da USE; 11 – Benedito Dias (Taubaté); 12 – dr. Bianor Medeiros (Olímpia), líder espírita na região; 13 – Agostinho Tofoli (Pinhal); 14 – Luiz Zanardi, pai de um dos líderes da USE e do Instituto Espírita de Educação Luiz Zanardi Jr. Como se vê, trata-se de uma lista de pessoas de extraordinário valor, que foram autênticos líderes em suas regiões.

 

Atividades da União Federativa:

O Revelador

Em junho de 1937 quando Thietre Denise Cintra assumiu a direção de “O Revelador” o jornal melhorou muito, quanto ao conteúdo e à forma. Revisão muito boa, nele não encontramos erros gramaticais, ortográficos ou de pontuação. Contava com ótimos colaboradores, tais como: Vinícius Antenor Ramos, Odilon Negrão, Fausto Lex, Antonio Freire, Ismael Gomes Braga (setor de esperando) e outros. No período de 1939 a 1943, a colaboração desses escritores foi muito intensa; eles desenvolviam trabalhos que focalizam aspectos do Espiritismo científico, sem descurar do aspecto religioso, este sob a incumbência de Vinícius e Romeu do Amaral Camargo.

Apenas como exemplo, transcrevemos a seguir parte do artigo de Odilon Negrão, (jornalista brilhante), publicado em “O Revelador”, em setembro de 1941:

“Os Engenheiros do Psiquismo”

À proporção que os dias passam, mais nos convencemos de que as tênues cortinas que nos separam do mundo dos espíritos mais se adelgaçam, mais transparentes se tornam. E de tal modo o seu tecido se esgarça que já podemos vislumbrar as luzes, embora bruxuleantes, que brilham nesse outro lado da vida e iluminam os seres que o habitam. E não só vemos essas fulgurações espirituais, como também já estamos ouvindo as palavras diretas daqueles que se afastaram do nosso convívio, tangidos pelos imperativos do fenômeno da morte.

Oliver Lodge, na sua maravilhosa obra ‘Raymond’, afirma, diante de fatos por ele constatados, que a intercomunicação plena e integral entre os planos da matéria e da alma, isto é, entre encarnados e desencarnados, processa-se num crescendo vertiginoso. Diz o sábio em inglês que há uma parede separando os dois mundos. Mas nesse anteparo, seguindo a mesma direção, os de cá e os de lá estão construindo um túnel, por meio do qual, mais dia menos dia, homens e espíritos se congraçarão. E conclui Lodge: ‘Já se ouvem, de ambos os lados, as pancadas das picaretas dos que se empenham nesse trabalho de engenharia psíquica’.

Não estamos longe, portanto, de conhecer, em todos os detalhes, as paisagens e os habitantes dessas plagas espirituais, que, há milênios, vem preocupando todas as filosofias e ciências dos homens da terra!

Os problemas do ser e do não ser são tão velhos como as raças. Os mais remotos documentos da humanidade mostram-nos que as questões relativas à morte e seus mistérios sempre empolgaram o entendimento dos homens.

Gautama Buda, o príncipe perfeito, acreditava que toda a alma humana fizesse muitas peregrinações neste mundo, até chegar ao céu. A princípio, influenciado pelos eremitas, Buda observou a concepção popular da transmigração da alma e ensinava que a alma individual renascia sucessivamente, passando de um cárcere corporal para outro, até que, finalmente, livre da necessidade do renascimento, dissolvia-se no Nirvana, isto é, na plena felicidade celeste. E, para explicar melhor essa teoria a seus discípulos, dizia que todo ser humano era uma tocha cuja chama passa, de mão em mão, continuando, através dos tempos, até que por fim se integrasse a chama universal da vida eterna.

… O Espiritismo é a vassoura que veio para tirar as teias de aranha que as ideias supersticiosas acumularam nos escaninhos do cérebro humano. O Espiritismo é a religião, é a ciência, é a doutrina filosófica que Deus deu aos homens, para que eles pudessem, sem artifícios e sem mistificações litúrgicas, compreendê-lo e sentido em toda a sua imensidade e sabedoria.

Os grandes intuitivos da antiguidade foram médiuns maravilhosos que nos legaram os princípios nos quais o Espiritismo de hoje se baseia. Mas o que eles conseguiram inconscientemente, dando aos fenômenos observados o prestígio de milagres, o Espiritismo hoje consegue cientificamente, dando um homem a certeza de que o mundo vive o império da razão.

A bíblia é um repositório inesgotável de fenômenos supranormais. Nela vemos as manifestações proféticas da intuição espiritual, assim como toda a corte dos fenômenos físicos, dos fenômenos mentais, da voz direta e da materialização.

Diante de uma borboleta maravilhosa e inquieta, nem nos lembramos que a perfeição que temos a vossa vista tivera sido uma repugnante lagarta. Se todas as coisas evoluem e se modificam, por que nós, também não evoluiremos? Por que também não poderemos nos transformar na borboleta ideal e etérea? ‘A própria evolução, conclui Lodge, explica melhor do que todas as páginas dos livros sagrados a existência dos espíritos, a certeza espírita!’

Nós não acreditamos na insinceridade dos espíritos científicos. O materialismo de hoje, como o espiritualismo de ontem, não podia ter capacidade para explicar os fenômenos da vida com a linguagem singela e pura da realidade. Mas estamos certos de que, ainda neste século 20, quando o túnel de Lodge estiver concluído, os homens compreenderão que aquilo que for da matéria será matéria e o que for do espírito será do espírito, como explicou Jesus a Nicodemos.

Nesse dia o mundo será melhor, a vida será melhor e o homem será mais digno de pronunciar, em espírito e verdade, o nome de Deus.

O Espiritismo na Associação Paulista de Medicina

Com esse título, encontramos no “Revelador”, de setembro de 1941, reportagem minuciosa, citando acontecimento totalmente fora dos padrões habituais, quando a sessão de Neurologia da Associação Paulista de Medicina abriu suas portas para a palestra que o Doutor Osório César fez sobre “Fenomenologia Super Normal”. O presidente da sessão, dr. Otávio Lemni, avisou que, embora não fosse de praxe, permitiria no fim, comentários.

Dr Osório César pediu licença para tratar de assunto “escabroso” para uma Associação de Medicina. Afirmava, com tudo, que, como cientista e pesquisador da verdade científica, não tinha direito de se furtar a evidência dos fatos. Relatou as experiências que realizou com vários médiuns, notadamente com um colega seu. dr Luiz Parigot de Souza, considerado um dos maiores da época. Citou Richet, Geley e outros metapsiquistas europeus. Documentou a palestra com projeções de diapositivos (slides), comprovando os fenômenos. Era a primeira vez, no Brasil, que um médico ousava levar para uma associação de medicina um tema tão controvertido e banido pela maioria dos pesquisadores.

Dr. Vicente Batista, nutrólogo e neuropediatra, disse que ouviu com atenção, mas nada entendeu. Acha que isso é devido à formação dos neuropediatras, que seguem a escola organicista e que não levam em consideração a metapsíquica. Esperava que o dr. Osório César fizesse uma demonstração mais cabal, de maneira mais ortodoxa.

Com a palavra, o dr. Aguiar Whitaker afirma que a demonstração da realidade dos fenômenos metapsíquicos é coisa que já se fez e ainda se faz. O fato de não se poder obter os fenômenos à vontade não tem a menor importância. Quem estuda Astronomia também não pode ter a visibilidade de um cometa à vontade. Nem sempre, em ciência, é possível a experimentação e, muitas vezes, para que se possa ter mesmo a simples observação, é preciso esperar que os fenômenos surjam. Eles realmente existem e devem ser demonstrados, por meio de pesquisas, para que passem para o domínio da ciência. À medida que o campo de observação vai aumentando, novas descobertas vão colocando em xeque os conhecimentos antigos, sendo assim, é preciso haver uma nova concepção dos fatos.

Dr. Luiz Monteiro de Barros, ao comentar a palestra, disse que os fenômenos mediúnicos estão cientificamente comprovados. O que interessa discutir são as hipóteses explicativas desses fenômenos, discordando do Dr. Whitaker, quando diz ser necessária certa crença prévia para demonstrar a existência do espírito. Os espíritas levaram esses fatos ao exagero e caíram num profundo misticismo, fruto da ignorância do povo, que a tudo quer atribuir manifestações de espíritos desencarnados.

Segundo o dr. Aníbal Silveira, realmente, a atitude de muitos psiquiatras é hostil à Metapsiquica. Entretanto eles também reagiram contra a Psicanálise, que foi mal recebida por grandes neuro psiquiatras, mas hoje é considerada como elemento relevante. Também a catalogação dos médiuns como histéricos e psicopatas provém observação superficial. Ele felicita o dr. Osório César pelo seu trabalho e pela interessante documentação. Acha que o médium não tem apenas ação catalítica e que os fenômenos não são independentes dele. O próprio médium do dr. Osório apresentava emanações ectoplasmáticas visíveis.

Finalizando a reunião, dr. Osório César, referindo-se aos comentários do dr. Monteiro de Barros, diz que aceita a doutrina científica do Espiritismo. Admite, ainda, que, em qualquer fenômeno supra normal, há parte espiritual e parte anímica, que não podem ser separadas uma da outra. Segundo dr. Osório, não foi só o inconsciente do médium que interveio, mas também as entidades espirituais.

Os prezados leitores devem, evidentemente, se surpreender com conceitos tão favoráveis ao Espiritismo, emitidos na Associação Paulista de Medicina, há 53 anos. Nessa época, nunca se ouvira falar, no Brasil, em Parapsicologia, nem no nome de J. B. Rhine. Quando muito, os mais letrados conheciam um pouquinho de Metapsíquica. O Espiritismo era, no conceito de grandes psiquiatras, coisa de loucos; os espíritas eram, no mínimo, neuróticos ou histéricos. Os jornais ignoravam o movimento espírita e nada publicavam a respeito. Por tudo isso, essa reunião da Seção de Neurologia causou grande impacto no meio médico. Os espíritas nem tomaram conhecimento dela. A Federação não tinha ainda “O Semeador” e a USE ainda não existia.

Rádio Piratininga

Desde a década de 30, os espíritas do Brasil procuravam divulgar o Espiritismo, por intermédio do rádio. Alguns programas radiofônicos são de nosso conhecimento, destacando-se um deles, na Guanabara, dirigido por Geraldo de Aquino, que durou alguns anos.

Em 1939, houve, em São Paulo, um programa radiofônico pela Rádio Tupi, designado “Hora Espírita” e conduzido por Antônio Rodrigues Montemor, da Diretoria da Federação, na qual Vinícius colaborou.

A União Federativa, auxiliada por confrades do Interior, resolveu criar sua própria Radiotransmissora. Conseguiu o prefixo PRH3 e lançou campanhas para angariar fundos. Alguns confrades de maiores posses enviaram suas contribuições, como foi o caso de Domingos Tedesco, de Barretos. Assim pôde ser construído o prédio, de pequenas proporções na rua Pay-Pirá, no Brooklin Paulista. Sua torre de transmissão superava, em altura, as outras existentes em São Paulo. O auditório comportava 50 pessoas. Além desse prédio, montou os escritórios no Edifício Rex, localizado no 11 andar do prédio situado no cruzamento da Rua Conselheiro Crispiniano com Avenida São João. Aí estavam os estúdios, a administração e os escritórios.

Características principais do transmissor: potência – 20 kw, nos picos de modulação; frequência – 620 quilo-ciclos; onda – 483,9 metros. Era uma das mais poderosas da época.

A Rádio Piratininga, chamada “A estação dos Espíritas”, foi inaugurada em 31 de março de 1940. A Diretoria estava assim constituída: Pedro de Camargo (Vinícius) – Diretor-superintendente; Floriano Peixoto da Costa – Diretor-gerente; Romeu do Amaral Camargo – Diretor-tesoureiro; Odilon Negrão – Diretor-secretário e prof. Romeu de Campos Vergal – Diretor-presidente.

Nos primeiros tempos, as palestras tinham de ser feitas na sede do transmissor, no Brooklin, ainda despovoado. Era uma rua escura, com escassa e iluminação: um poste a cada 100 metros, sem calçamento, situada a cerca de 300 metros do bonde para Santo Amaro. Durante um ano, fizemos uma palestra por um mês, de lá irradiadas, e sentimos na própria pele as dificuldades de acesso, pois ninguém possuía automóvel e tínhamos de ir de bonde mesmo. Ainda bem que, nessa época, ainda não havia assaltos. Tínhamos 24 anos de idade e acabávamos de nos formar em medicina, pela USP.

As palestras a serem irradiadas serão previamente analisadas por Vinicius e Fausto Lex, para evitar que possíveis tolices e erros fossem irradiados como ensinamentos espíritas. Essa pré-análise era necessária devido ao grande número de trabalhos de baixa qualidade que eram enviados para a Rádio. Outros, de bom conteúdo, apresentavam erros de português, que eram sanados.

Conhecemos pessoalmente Jesus Gonçalves. Ele mesmo pronunciava seu nome com acento na última sílaba e não Jésus, como vem sendo divulgado. Recém-saído do Leprosário de Pirapitingui, era um dos poucos com cura julgada definitiva. Ia, com frequência, aos escritórios da Rádio Piratininga. Produzia numerosas poesias, com bom conteúdo, mas com algumas falhas de métrica e de redação, pois não tinha cultura especializada. Fausto Lex, como grande dedicação, corrigia essas falhas e, às vezes, até refazia certos versos. Jesus Gonçalves, verdadeiro espírita, humilde, aceitava integralmente as sugestões.

Em 23 de novembro de 1940, a Rádio Piratininga, em conjunto com a União Federativa, realizou uma Concentração Espírita no Estádio do Pacaembu. Vinícius e Odilon Negrão falaram.

A rádio Piratininga funcionou durante cerca de três anos e acabou desaparecendo de maneira muito triste, para os espíritas. Houve dificuldades financeiras, pois aqueles que se entusiasmaram e colaboraram no início, acabaram sumindo. Por outro lado, surgiram desavenças, pois vários diretores não se conformavam com a reforma ditatorial como Caetano Mero dirigia a Rádio, resolvendo tudo sozinho. Vinícius, Romeu do Amaral Camargo e Campos Vergal afastaram-se. Caetano Mero chamou-nos a seu escritório e solicitou nossa colaboração para intermediar um acordo com os descontentes. Mas, lamentavelmente, os fatos que ele nos referiu ao abrir-se conosco e contar coisas que os diretores desconheciam, acabaram prejudicando, ainda mais, sua imagem. Para Ary Lex, jovem e idealista, foi uma decepção. Era a primeira “divindade” espírita que caía do pedestal.

Algum tempo depois, fomos surpreendidos pela notícia da cassação, pelo Governo, do prefixo PRH3, o qual foi entregue à exploração por outra Entidade particular. Detalhes mais profundos, desconhecemos. Não houve explicação alguma aos espíritas, nem pelos jornais. Nada.

A União Federativa Após 1942

Até 1941, a União Federativa Espírita Paulista continuava sendo a maior entidade Espírita de São Paulo: maior número de Centros filiados, representantes valiosos em todo o Interior, uma sede Central com grande salão e vários intelectuais em seu quadro. Após o fracasso da Rádio Piratininga e os problemas pessoais muito grave surgidos, houve uma debandada dos dirigentes mais notáveis. Além de Vergal, Vinícius e Romeu do Amaral Camargo, deixaram a União Federativa: Benedito Godoy Paiva, Emílio Manso Vieira, Fausto Lex e Antenor Ramos. Este, depois, fundou a Liga Espírita do Estado de São Paulo.

O grande jornalista e escritor ODILON NEGRÃO, diretor de “O Revelador”, também se afastou, mas não se integrou em outra entidade espírita, abandonando, infelizmente, toda e qualquer atividade no movimento espírita. Foi uma grande perda para o Espiritismo patrício. “O Revelador”, que era o melhor periódico espírita do Brasil, a nosso ver, no período de 1938 a 1943, caiu brutalmente de qualidade, perdendo colaboradores de nível Internacional e passando a ser ignorado. Odilon Negrão desencarnou em 1991, aos 82 anos.

A União Federativa perdeu também sua sede, pois todos os prédios do Largo do Riachuelo foram demolidos. Ela passou a funcionar em local menor, na Avenida Liberdade.

Em 1947, fundou-se a União das Sociedades Espíritas, com a adesão da Federação, União Federativa, Liga Espírita e Sinagoga Espírita Nova Jerusalém. Aderiram depois três entidades que congregavam categorias profissionais: o Clube dos Jornalistas Espíritas, o Instituto Espírita de Educação e a Associação Médico-Espírita de São Paulo. Entretanto, a adesão da União Federativa foi apenas simbólica, pois ela nunca participou dos trabalhos da USE e raramente comparecia à reunião trimestral do Conselho Deliberativo Estadual. Apesar desse total desinteresse, o Conselho da USE nunca quis tomar a iniciativa de excluí-la do movimento.

Texto extraído do livro:

60 Anos de Espiritismo no Estado de São Paulo – Nossa Vivência /  Ary Lex; Histórico do Movimento Espírita Paulista; Prefácio de Teodoro Lausi Sacco; Edições FEESP, São Paulo, SP.